Cenário Econômico Brasileiro: Riscos e Oportunidades para as Empresas

Indicadores razoáveis convivem com alta incerteza fiscal e regulatória. Como ler o cenário econômico brasileiro e decidir bem em meio à complexidade.

Os indicadores melhoraram, mas a sensação de quem decide nas empresas não acompanhou. É mais ou menos esse o paradoxo do Brasil de hoje: números macroeconômicos razoáveis convivendo com um grau de incerteza fiscal e regulatória que torna qualquer plano de médio prazo um exercício de revisão constante.

Sou economista de formação e engenheiro de produção, passei por uma multinacional global e por um mandato no Congresso. De todos esses lugares, aprendi uma coisa que repito aos executivos e conselheiros com quem trabalho: macroeconomia, no Brasil, não é assunto de economista. É assunto de estratégia.

O que está em jogo

Os juros reais brasileiros seguem entre os mais altos do mundo, mesmo nos ciclos de queda da Selic. Isso encarece o capital, derruba a viabilidade de projetos e penaliza setores intensivos em investimento, como infraestrutura e energia. Na prática, decisões que fechariam conta em outros países simplesmente não fecham aqui, e investimentos que deveriam acontecer agora ficam para depois, gerando um custo de oportunidade invisível, mas muito real.

O risco fiscal virou variável permanente. O arcabouço fiscal trouxe alguma previsibilidade, mas não atacou o fundo do problema: o gasto público segue crescendo acima da capacidade de arrecadação, e a trajetória da dívida é insustentável no médio prazo sem ajustes que ninguém quer fazer às vésperas de eleição. Para o setor privado, isso recomenda planejar com câmbio mais depreciado, inflação pressionada e a possibilidade de mudança tributária a qualquer momento.

E há a regulação. O ambiente regulatório brasileiro é denso e muda com frequência. Para quem sabe navegá-lo, é vantagem competitiva; para os demais, é custo. Energia, saúde, telecomunicações e serviços financeiros estão especialmente expostos a mudanças capazes de alterar premissas inteiras de negócio.

Como ler o cenário — e o que fazer

O CEO que não entende o impacto da política fiscal sobre a sua estrutura de capital está decidindo com premissa errada. O conselheiro que não acompanha o ambiente regulatório está validando estratégia apoiada em um cenário que pode não existir daqui a seis meses.

O que recomendo a quem dirige ou aconselha empresas: trabalhar com mais de uma trajetória fiscal possível, em vez de uma única projeção; mapear a exposição regulatória do negócio e manter uma estratégia ativa de relações governamentais; revisar premissas de investimento em ciclos mais curtos, mensais ou trimestrais, e não uma vez por ano; e tratar o câmbio como variável estratégica, não como surpresa de fim de trimestre.

Conclusão

O Brasil oferece oportunidade real para quem sabe operar em meio à complexidade. Mas exige um tipo de liderança que vai além da gestão operacional: exige entender que economia, política e regulação não são pano de fundo, e sim o próprio terreno onde a estratégia se ganha ou se perde.