Tarifaço: revidar é a parte fácil

Os EUA taxaram de novo os produtos brasileiros e o Brasil quer revidar. Quem paga a conta de uma guerra tarifária, e por que o dever de casa importa mais que a retaliação.

Os Estados Unidos taxaram os produtos brasileiros de novo. Desde o fim de julho, uma tarifa extra de 25% se soma às sobretaxas que já existiam, e alguns produtos nossos chegam agora à alfândega americana pagando quase 40% para entrar. O Brasil respondeu no tom esperado: vai acionar a Lei da Reciprocidade e levar o caso à OMC. A medida tem base legal. Mas, a poucos meses de uma eleição, seria ingênuo ignorar que parte da resposta tem cunho eleitoral: revidar projeta firmeza, rende manchete e não cobra nada de quem decide no palanque. A conta vem para outro lugar. E essa é a pergunta que o discurso costuma pular: quem paga por ela? Porque revidar é a parte fácil da história.

Vale lembrar o que é uma tarifa, porque no calor da política isso se perde. Tarifa é imposto, e imposto quem paga é quem compra. Quando os Estados Unidos taxam o nosso aço, quem sente primeiro é a indústria e o consumidor americano que usavam esse aço. E quando nós taxamos de volta um remédio ou um chip que vem de lá, quem paga a conta é o hospital, a fábrica e o consumidor brasileiro. Bastiat já dizia, há quase dois séculos, que na economia existe o que se vê e o que não se vê. Na guerra tarifária, o que se vê é o gesto firme do governo; o que não se vê é o preço subindo na ponta, dos dois lados.

Não é que reciprocidade nunca faça sentido. Diante de uma medida que muitos consideram injusta e politicamente motivada, ter um instrumento de barganha na mão dá poder de negociação, e ninguém quer o país de joelhos. O ponto é outro: retaliação tarifária é remédio que intoxica também quem toma. Ela encarece insumo aqui dentro, assusta investidor e transforma uma disputa pontual numa escalada em que os dois lados saem mais pobres. A pergunta que um bom negociador faz não é "como eu revido mais forte?", e sim "como eu saio disso perdendo menos?".

E aqui entra uma distinção que eu insisto sempre. Defender o interesse do Brasil não é a mesma coisa que defender os setores que gritam mais alto. Toda barreira comercial, venha de fora ou daqui, protege alguém específico e cobra de todo o resto. A tarifa que salva uma indústria ineficiente é paga, em silêncio, por milhões de consumidores e por todas as empresas que compram dela. Protecionismo tem sempre um beneficiário visível e uma multidão invisível pagando a conta. Roberto Campos gastou a vida lembrando disso, e a gente teima em reaprender do jeito difícil.

O que o tarifaço escancara não é só a dureza de quem taxou. É a nossa vulnerabilidade. Um país que depende demais de um único comprador fica refém dele. E a resposta durável para isso não cabe num decreto de retaliação: passa por abrir mais mercados, destravar acordos comerciais que ficaram anos parados e, principalmente, atacar o Custo Brasil que faz o nosso produto chegar caro em qualquer porto. Somos competitivos apesar do nosso próprio Estado, não por causa dele. Enquanto tributo, burocracia e insegurança jurídica pesarem tanto, qualquer tarifa lá fora dói mais do que precisaria.

Então fica a pergunta que importa, longe do palanque. A gente quer ganhar a discussão ou quer sair mais forte? Revidar rende manchete e aplauso no dia seguinte. Diversificar mercado e baixar o Custo Brasil não rende foto, dá trabalho e leva anos. Mas é a diferença entre um país que corre atrás de cada tarifa como quem apaga incêndio e um país que fica difícil de chantagear. O tarifaço passa. A vulnerabilidade que ele revelou continua aqui depois que a poeira baixar, esperando alguém com paciência para resolver o que é nosso.