Transição Energética: O que as Empresas Precisam Entender Agora
A transição energética é tema de competitividade, não apenas de sustentabilidade. O que mudou no mercado livre de energia e como posicionar sua empresa agora.
Quando atuei pela aprovação da Nova Lei do Gás, no Congresso, ficou claro para mim que energia, no Brasil, é antes de tudo um tema de competitividade, e só depois um tema ambiental. Hoje, como membro do conselho de uma transmissora de energia, vejo a mesma lógica do lado da operação. A transição energética chega às empresas brasileiras muito mais como questão de custo, acesso a mercado e estratégia do que como pauta de sustentabilidade.
Enquanto o debate público se perde em polarização sobre clima, as empresas que se posicionam agora para a economia de baixo carbono estão construindo vantagens difíceis de reverter.
O ponto de partida brasileiro
O Brasil larga de uma posição privilegiada: nossa matriz elétrica já é composta por cerca de 90% de fontes renováveis, algo que pouquíssimos países têm. É uma vantagem competitiva que ainda exploramos mal.
Mas há obstáculos concretos. O marco regulatório do setor está em plena reformulação — mercado livre, geração distribuída, armazenamento, hidrogênio verde, cada tema com regras novas que vão definir vencedores e perdedores. A infraestrutura de transmissão não acompanha o ritmo da geração renovável, e esse é um gargalo que conheço de perto: há projetos prontos para gerar que não conseguem escoar energia por falta de linha. E o capital existe, mas é seletivo. O investidor internacional tem apetite por renováveis no Brasil, desde que encontre governança e previsibilidade regulatória.
O que mudou no mercado livre — e muita empresa ainda não percebeu
Aqui vale corrigir uma ideia ultrapassada. Por muito tempo, só grandes consumidores podiam comprar energia no mercado livre. Isso mudou: desde janeiro de 2024, qualquer consumidor de alta ou média tensão (o chamado Grupo A) pode migrar, independentemente do antigo piso de 500 kW de demanda. E a fronteira seguinte já está definida em lei: a baixa tensão comercial e industrial deve entrar até novembro de 2027, e os consumidores residenciais até novembro de 2028.
Ou seja, se a sua empresa ainda compra energia no mercado regulado, provavelmente está pagando mais do que precisa. A migração bem estruturada costuma reduzir o custo de energia de forma relevante, e isso é margem, é competitividade.
O que está em jogo além do custo
Para quem exporta, há o CBAM europeu, o mecanismo que vai tarifar produtos importados conforme a pegada de carbono. Empresas brasileiras que vendem para a Europa precisam se preparar antes de a régua apertar, não depois. E há o acesso a capital: fundos e investidores institucionais elevaram a exigência sobre emissões, e quem não consegue medir e reduzir a própria pegada tende a perder o financiamento mais barato.
O que fazer na prática
Comece mapeando a exposição: quanto da sua estrutura de custos depende de energia, qual a sua pegada de carbono e a que regulações de carbono você está sujeito nos mercados onde opera. Avalie a migração para o mercado livre, hoje ao alcance de praticamente toda empresa de porte relevante. Estruture uma estratégia de descarbonização que seja real, com metas, prazos e, principalmente, governança para acompanhar a execução. E monitore a regulação de perto: no setor de energia, mudança de regra muda a viabilidade de um projeto inteiro.
As oportunidades
O hidrogênio verde é a aposta de maior fôlego. O Brasil reúne energia renovável barata, água e portos, e tem condições de se tornar um produtor global relevante, desde que o marco regulatório, em discussão agora, não nos faça perder a janela para concorrentes como Chile e Austrália. O armazenamento de energia é a peça que ainda falta no quebra-cabeça e está perto de viabilidade econômica em escala. E o próprio mercado de comercialização, com a abertura crescente, vai gerar oportunidades novas para quem entender as regras antes dos outros.
A transição energética vai redesenhar custos e competitividade da economia brasileira nos próximos anos. Quem trata o tema como estratégia, e não como relatório de sustentabilidade, sai na frente.