O Futuro do Setor Elétrico Brasileiro

Mercado livre, renováveis, transmissão, armazenamento e hidrogênio verde: as forças que estão redesenhando o setor elétrico brasileiro e o que elas significam para as empresas.

O setor elétrico brasileiro vive a maior transformação da sua história, e boa parte das empresas ainda não percebeu o tamanho disso. A abertura do mercado livre, o avanço acelerado das renováveis, a chegada do armazenamento e a corrida pelo hidrogênio verde estão redesenhando custos, competitividade e estratégia de praticamente toda empresa que opera no país.

Acompanho esse movimento de perto por dois caminhos. No Congresso, atuei pela aprovação da Nova Lei do Gás, parte desse rearranjo do setor energético. E, como membro do conselho de uma transmissora de energia, vejo de dentro os gargalos e as oportunidades que descrevo aqui.

A abertura do mercado livre

Por muito tempo, comprar energia no mercado livre era privilégio de grandes consumidores. Isso ficou para trás. Desde janeiro de 2024, todo consumidor de alta ou média tensão pode escolher seu fornecedor, sem o antigo piso de 500 kW de demanda. E a próxima fronteira já está definida: pela nova legislação, a baixa tensão comercial e industrial deve migrar até novembro de 2027, e os residenciais até novembro de 2028. Estamos falando de abrir o mercado para dezenas de milhões de unidades consumidoras.

O mercado livre já responde por cerca de 43% de toda a energia consumida no Brasil e reúne perto de 85 mil participantes. À medida que se amplia, cresce a competição, e quem se move antes captura a economia primeiro.

A explosão das renováveis — e o gargalo que vem junto

A matriz elétrica brasileira já é cerca de 90% renovável, e a geração solar e eólica seguem crescendo a ritmo forte, com custos em queda. O problema é que essa geração é intermitente: o sol não brilha à noite, o vento não sopra o tempo todo. E há um gargalo menos visível, mas decisivo, que é a transmissão. A capacidade de levar a energia de onde ela é gerada até onde é consumida não acompanhou o crescimento da geração. Conheço esse ponto de perto: existem projetos renováveis prontos que não conseguem escoar produção por falta de linha. Resolver isso é tão estratégico quanto construir novas usinas.

Armazenamento e hidrogênio

O armazenamento de energia, com baterias e tecnologias afins, é a peça que falta para destravar a transição. Quando se tornar viável em escala, e estamos perto disso, a dinâmica do setor muda: será possível guardar a energia barata dos períodos de sol e vento para usá-la quando a oferta cai. O hidrogênio verde é a aposta de mais longo prazo, e o Brasil tem condições naturais excepcionais para produzi-lo. As decisões regulatórias dos próximos anos vão dizer se capturamos essa oportunidade ou se a entregamos a concorrentes.

Os riscos

O maior deles é regulatório. O setor é densamente regulado, e mudança de regra altera a viabilidade de projetos inteiros. A insegurança jurídica continua sendo o principal freio ao investimento. Há também o risco de execução, ligado à transmissão que mencionei, e o risco político: tarifa de energia afeta todo brasileiro, e a tentação de intervir para segurar preços tem histórico de cobrar caro no médio prazo.

O que fazer

Para a maioria das empresas, o primeiro passo é óbvio e costuma ser adiado: avaliar a migração para o mercado livre, hoje acessível a praticamente todo consumidor de porte. Em paralelo, vale acompanhar de perto a regulamentação do armazenamento e do hidrogênio, porque é ali que se desenham as oportunidades da próxima década. E, para quem investe no setor, a leitura do ambiente regulatório e político deixou de ser detalhe: é o que separa o projeto que dá certo do que trava no meio do caminho.